Amar
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina.Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
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Memória
Amar o perdido
Deixa infundido
Este coração
Nada pode o olvido
Contra o seu sentido
Apelo do não
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
À palma da mão
Mas as coisas findas
Muito mais que lindas,
Estas ficarão...
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As sem razões do amor
Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
POEMAS AO ACASO
Poema ao acaso
é tarde meu amorestou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva de meu corpo sofridoagora, tuas máquinas trituraram-me, cospem-me, interrompem o sonohabito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais...a solidão tem dias mais cruéistentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro...quis ser grande e morrer contigoenfeitar-me com as tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda...cantar-te os gestos com ternuramas nãoáguas, águas inquinadas pulsando dentro do meu corpo, como um peixe ferido, loucoem mim a lama... e o visco inocente dos teus náufragos sem nome-de-rua, nem estátua-de-jardim-públicoaceito o desafio do teu desdémna boca ficou-me um gosto a salmoura e destruiçãoapenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantamin Livro Quarto - Trabalhos do olhar
é tarde meu amorestou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva de meu corpo sofridoagora, tuas máquinas trituraram-me, cospem-me, interrompem o sonohabito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais...a solidão tem dias mais cruéistentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro...quis ser grande e morrer contigoenfeitar-me com as tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda...cantar-te os gestos com ternuramas nãoáguas, águas inquinadas pulsando dentro do meu corpo, como um peixe ferido, loucoem mim a lama... e o visco inocente dos teus náufragos sem nome-de-rua, nem estátua-de-jardim-públicoaceito o desafio do teu desdémna boca ficou-me um gosto a salmoura e destruiçãoapenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantamin Livro Quarto - Trabalhos do olhar
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